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    Home»Cultura»Um paradoxo para pensar: e os conteúdos cheios de esvaziamento? – 16/02/2024 – Veny Santos
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    Um paradoxo para pensar: e os conteúdos cheios de esvaziamento? – 16/02/2024 – Veny Santos

    Eita GotaBy Eita Gotafevereiro 16, 2024
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    É possível decidir não tratar de um tema extremamente relevante no intuito de evitar que ele seja esvaziado? Sim, mas toda decisão traz consequências. Saber quando e como articular os conhecimentos adquiridos requer paciência, pragmatismo, comprometimento e método. Praticamente tudo o que os tempos atuais evitam ou não demandam no âmbito da comunicação social —e digital.

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    Não são poucas nem raras as vezes em que se veem temas de grande relevância social sendo tratados como se em mesas de bar estivessem, nas quais o compromisso maior é com a liberdade de ser quem mistura catarse a fatos sem obrigação de fazer real sentido. A liberdade de não fazer sentido tentando parecer que há algum.

    Os interlocutores têm o hábito de transpirar embriaguez ao relatar, com hálito de grandeza digno das maiores epopeias, conceitos sem fundamentação; práxis sem teoria. Constrói-se uma narrativa fantasiosa, baforada pelos dragões da intelectualidade e suas inquietas e criativas chamas do devir, que, entre um gole e outro, fabulam a condição de heróis. Para o bem ou para o mal, é bar. Conversa de bar.

    A preocupação vem quando essa mesma imagem se transporta para espaços de grande impacto na formação e reformulação das pautas de interesse público e aos objetivos concretos quanto ao que, de fato, deve ser levado a sério para promover avanços na sociedade. Espaços estes que vão desde cenas de novela, criação de conteúdos para redes sociais, podcasts e palestras, até manchetes, editoriais, colunas e realities shows que atingem milhões de pessoas.

    Sabe-se que a falta de rigor e a estratégia explícita de mercado que tenta transformar temáticas sociais e políticas em publicidade prejudicam muito o trabalho realizado por movimentos sociais, professores, organizações autônomas, veículos de comunicação independentes e educadores preocupados com o aprendizado emancipador. Sabe-se ainda que as consequências da banalização das pautas que visam combater as desigualdades sociais em todas as camadas —ou estratificações— se revelam o absoluto contrário: a acentuação dos contrastes que aniquilam as populações mais vulneráveis.


    Amanhece o dia. As notificações de todos os lados cantam mais do que os raríssimos galos que ainda podem ser ouvidos entre uma quebrada e outra. Na rede social: racismo explicado e resolvido em 15 minutos, gordofobia conceituada e simplificada em três postagens, teoria política, teoria da comunicação, filosofia, psicologia, todas abordadas separadamente entre uma propaganda de podcast e outra. Há resposta para tudo e todos, pode-se escolher na prateleira e ser feliz —ou infeliz, mas irrefutável. Resolvem-se em apenas 4.000 toques os problemas econômicos estruturais do país, sempre com aquele sarcasmo detectável —o que faz dele nada sarcástico pela falta de sutileza e excesso de arrogância. Escreve-se sobre minorias sociais como se todas fossem uma só: um só pobre, um só negro, um só indígena. Ainda perturbam a empregada doméstica perguntando em quem ela irá votar nas disputas eleitorais, mas nunca o que pensa sobre o salário que recebe.

    Para completar a espetacularização da real tragédia social vivida todos os dias, cria-se uma estrutura de comunicação em que se faz parecer que qualquer assunto visto como “progressista” é de alçada do que se acha entender por “esquerda”. Enquanto isso, por trás do palco, onde a vida concreta se apresenta sem alegorias, organizações autônomas e muitos agentes políticos e culturais lutam arduamente para não serem confundidos com personagens de uma encenação por si só decadente. Nem esquerda, nem direita: fundão. Lá estão os que são.

    Telas cheias de conteúdo, a todo momento, sempre curtos querendo ser grossos o bastante para fingir sustância, é assim que se esvaziam, hoje, temas importantes. Perde-se o entendimento sobre as complexidades dos aspectos críticos da sociedade que demandam desta mais do que entretenimento. Demandam conhecimento sobre a real proporção dos problemas enfrentados e vividos.


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    Fonte: Uol

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